segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Noite fria de Setembro.



De fato é doloroso quando uma música, um objeto ou um cheiro te faz lembrar aquela pessoa do qual seu trabalho é se policiar para não ter os pensamentos povoados pela mesma. Mas... Quando é você que faz lembrar ela? Quando o seu corpo, seu cheiro, sua pele faz lembrar que tudo isso foi tocado e sentido por aquela pessoa que te possuiu tão divinamente que, você mesma, passou a ter um lacre com aquele nome. Você pode ensurdecer uma música, se livrar de um objeto ou correr de um cheiro; mas você não pode fugir de si mesmo. Não pode destruir a si mesmo. Têm que apenas encarar seu reflexo no espelho e ter o coração lentamente espetado, enquanto se recorda o quão seu corpo é conhecido por aquelas palmas, o quão ridiculamente seu corpo pede por aquele toque. A partir daí você passa a ter repulsa de si mesmo. Passa a odiar o santuário que aquela pessoa construiu e mantém religiosamente uma presença espiritual perturbadora. Onde se encontra esse santuário? Ele é você. E por mais que você negue e tente construir uma armadura, ela sempre vai ser dilacerada em pequenos fragmentos, até não existir mais. E por mais que você seu nariz esteja apontado para o céu e um sorriso que insiste em dizer que “está tudo bem” molde eternamente seus lábios, você sempre vai ser submissa, vai sempre estar a mercê daquele que lhe despedaça. Por toda vida procurou alguém que lhe ajudasse a recuperar os pedaços de si que perdeu ao longo de sua trajetória, mas o que achou foi alguém que lhe arrancasse numerosos pedaços e, depois, escondê-los-ia sob a infinita areia da praia para jamais serem encontrados. E sabe o que mais lhe dói? Enquanto os pedaços lhe são roubados, você tem um sorriso e um brilho cristalino tão forte nos olhos, que só percebe os buracos na sua alma após. Todavia, mesmo que sentisse a dor das fatias da alma sendo arrebatada, você jamais negaria. Você jamais o pediria para cessar. Por mais que os toques e o calor seja sincero e real, o que na verdade aquela pessoa almejava é tocar outra. Ela queria e não queria você ali aquela noite. Ansiava pela terceira pessoa, que na verdade, é a primeira em sua vida. E você sabia, mas não se permitia parar de sentir tanta coisa boa. Era um pecado se sentir tão bem. Por mais que cada sorriso, aceleração de pulso, suspiro, toque e palavra não pertencessem a você, necessitava deles. Você tinha um apetite infinito por tudo aquilo, e por mais que não eram seus, você tinha de roubá-los. Tinha de se dar ao luxo de atingir o álibi perfeito. E por tempos ele te dava o script e você encenava, apenas nos bastidores você pôde chorar e liberar todas aquelas emoções que por momentos tanto te envenenou. Mas ainda há tanta coisa presa no teu coração, polindo-o e matando-o. Coração que você foi obrigado a trancar. Trancou para que nada entrasse, mas tudo entrou e nada consegue tirar. A essa pessoa você dedicou suas trezentas noites mal dormidas, suas quinhentas lágrimas derramadas ao travesseiro.
E por mais que você grite essa dor não vai parar. É um tumor que cresceu em você e ciência alguma descobrira a cura.
Mais alguma que algum fato que lhe doa? O fato de que, ele vai pensar nela, você ciente disso vai pensar nele também. Ele vai passar o dia e a noite, amando-a e namorando-a em pensamentos, contudo vai te pedir de volta mais uma noite... E você vai. Você vai... E vai voltar pior. E por que não dá um ponto final nesse conto que o destino analfabeto fará de sua vida? Porque ser morta aos poucos lhe é mais atrativo do que uma única apunhalada fatal. Porque mesmo que ele roube pedaços de você, diluindo-a devagar, lhe assusta o fato de ser perdida por inteiro. Provoca-lhe medo o fato de não ser mais a terceira pessoa. E esse fragelamento vai desenrolando feito um novelo de lã, e igualmente o mesmo, não há um nó no final para que eu me segure. Isso vai ter um final. Um dia ele vai deixá-la. Há de um dia você ouvir “Não preciso mais de você”. Pois sabe o que acontece? Você sabe que está sendo usada, mas o fato de você ter um espaço, de fazer parte de determinados momentos na vida dele, já lhe deixa maravilhada. Um dia há de ter fim, não é como o horizonte onde a linha é infinita e eterna.

"Eu só queria ser lembrado".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Aos meus primos.


Quando pequena sempre fui uma criança carinhosa. Tinha medo de ficar sozinha, pavor da escuridão e amava profundamente. Amava tudo e a todos. Amava o vizinho e a moça da mercearia. Amava minhas bonecas e todos os meus familiares, até os que moravam longe e os que já haviam partido do templo da vida. Era esperta, e reparava em tudo, e mal sabia eu, mas era forte. Afirmo com um nó na garganta que era mais forte do que sou hoje, depois de tanto tempo, depois de descobrir o que a vida realmente era. Talvez por isso eu era tão forte, por não saber que a vida era uma realidade dolorosa em que a cicatriz não vai embora. Talvez pensasse que quando a gente afagava, a cicatriz desmanchava. Simplesmente ia embora, e a gente ficava livre do que um dia iria ser uma memória terrível. Quando o meu pai penetrou o útero da morte, minha mãe me disse que eu, ao saber da notícia, simplesmente fui até o armário dele, peguei suas roupas, e as tirei de lá. Mas analisando esse fato, posso comprar a Pequena Thauany com a Grande Thauany de hoje, que se mostra forte e firme, mas por nos bastidores é frágil e derrama lágrimas ocultas. Lembro-me muito bem que um dia minha mãe me pegou chorando, e eu disse que sentia falta do meu pai e que o queria de volta. E como eu era pequena, ela me disse que se, eu chorasse, meu pai iria voltar, mas ele estava num lugar bom, e se ele voltasse, ficaria triste. Como não queria meu pai triste, prometi a mim mesma que nunca mais o desejarei de volta. Contudo, depois de grande, o desejei aqui, mas ele não voltou do lugar onde estava.

Quando ele se foi, meu tio Fernando disse a mim que ele seria o meu pai. Ele iria preencher o lugar paternal que a terra do solo enterrou consigo. Apartir daquele momento, todos os meus cartões do Dia dos Pais foram para ele, e eu não me sentia tão sozinha, porque tinha para quem entregar os meus desenhos e um “Feliz Dia dos Pais”. Meu tio era meu pai e meus dois primos meus irmãos. Cayo e Kauã faziam parte da minha vida, meu dia nunca seria completo se eu não os visse. Éramos inseparáveis, os três mosqueteiros. A casa deles era a minha casa, e juntos sonhávamos com um futuro mágico, pois não tínhamos noção alguma de que a vida se tratava dessa coisa tão complexa e difícil. Não haviam nos dito, ao sair do útero da nossa mão e penetrar no útero social que, uma vez que nossa mente era infecta com a maldade do mundo, a gente não seria mais o que éramos. Que a gente não iria ser tudo o que a gente gastou preciosas horas da nossa vida imaginando. Ninguém disse que quando crescêssemos, a gente ia se tratar como três estranhos, três crianças que eram como uma só. Hoje eu não sei quem é o Cayo, não faço idéia de quem é aquele estranho que se apossou do corpo do meu Kauã. É um fato que o ser humano se reinventar a todo momento, mas tinha que acontecer isso com a gente? Por que tínhamos que seguir caminhos diferentes? Por que é que todos nós não podíamos ser igual, sendo que quando crianças éramos assim? Por que eles tinham de ir para esse caminho tão negro, TÃO errado? Eles eram os meus irmãos, eles eram os meus companheiros, os meus anjos. Hoje são estranhos. Eu mudei, e eu pesso perdão por não ser como a Pequena Thauany. Pesso perdão por ter desonrado todas nossas promessas, mudando minha personalidade e meu jeito. Descaracterizando a Thauany dócil, meiga, que gostava de abraçar a todos e confiava no mundo inteiro. Agora é uma Thauany arrogante, desconfiada e reclusa. Eu matei a Thauany de vocês, e construi isso que eu chamo de “eu”. Mas vocês tiraram de mim o meu Cayo e o meu Kauã. Nenhum de nós tinha esse direito, pois os VERDADEIROS Thauany, Cayo e Kauã assinaram um trato de que seriamos unidos e que o nosso mundo sempre seria mágico. Os meus verdadeiros irmãos, aqueles que saiam do útero da minha mãe assim como eu, nunca tiveram a mesma importância que vocês dois tinham para mim. Não há momento em que olho para esses dois e não tenho a vontade de chorar... De ver o que eles eram antes, e ver o que são agora. Eu queria tanto voltar no passado, apagar as linhas e reescrever um novo futuro para nós três. Fazer com que a gente nunca tivesse desfeito nosso laço, e juntos, seriamos pessoas boas.

Nessas linhas juntos com as minhas lágrimas, se existe realmente um Deus, eu quero que ele traga os meus primos, os meus irmãos de volta. E que junto, traga a verdadeira Thauany. Porque eu amo esses dois com a minha alma, com o meu sangue, e não quero que eles penetrem no útero da morte tão cedo. Quero ver seus filhos, e que eles dêem colo para os meus. Quero ser amiga de suas esposas, e quero abraça-los e dar a ordem aos meus ombros de capturar suas lágrimas. Eu quero que eles sejam felizes. Só EU sei o quanto eu quero isso, e o quanto é sincero esse meu desejo. Eu quero renunciar a felicidade que um dia eu irei sentir, para dar a eles. Eu quero ver, como um filme agradável, o futuro dos meus meninos, e quero ver eu nesse filme. Não mais quero chorar nos bastidores da vida, eu apenas... eu apenas quero eles de volta.


sexta-feira, 19 de março de 2010

Nothing lasts forever.

Ontem estava eu... Pensando com meus botões, enquanto via um vídeo do Maiden tocando The Trooper ao vivo, encarando calada o Bruce enquando ele gesticulava e se movia jovialmente pelo palco, enquanto o Steve Harris corria por todo lado... Por que eles envelhecem, não é mesmo? Deveria ser da seguinte forma: quando se atinge o poder de ser considerado um Deus, um ícone, ele deveria ser congelado no tempo apartir daquele momento e nunca mais envelhecer. Ser imortal, e nos fornecer tudo o que há de bom neste mundo, que é o velho rock n'roll. Porque eles são dignos, sim, de permanecer aqui intactos. Serem envolvidos por um escudo eterno e nos fazer apaixonar.
Bruce é, com toda certeza, um deles. Como também James, Eddie Vedder, Steve Harris, Paul Stanley, Gene Simmons, Edu Falaschi, Kiko Loreiro e muitos outros. Porque, particulamente, mesmo sabendo que esses heróis são de carne, tenho medo do dia que eles irão partir, assim como muitos já se foram.
O que mais sinto falta, mesmo definitivamente não sendo da minha epoca, é o meu Manfredini, Renato Russo. Eu fico muito curiosa, querendo arduamente saber o que ele iria dizer sobre o mundo agora. Sobre a poluição, sobre o modismo, sobre a política, crimes e tudo que envolvesse a sociedade. Ele iria ter uma crítica sabía, e talvez iria nos ensinar a como sobreviver esse purgatório. Vivo das escrituras sagrada que é a música dele, e é isso que resta.
De fato, ainda me preenche o coração, e vai continuar preenchendo ao longo de minha vida. Que mais posso fazer? A não ser me alimentar das cinzas. Mas também quero me alimentar dos vivos, que ainda tem sua fonte d'água sempre despencando seu liquído cristalino.
Quero me manter num sonho lindo, onde eles são de ferro e nada os atravessam. E jamais hei de acordar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Me calo.

Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo... Todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia. Sempre em frente, não temos tempo a perder... Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo, e tão sério... E selvagem. Selvagem. Selvagem...
Veja o sol dessa manhã tão cinza... A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos. Então me abraça forte e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Tempos nosso próprio tempo, temos nosso próprio tempo, temos nosso póprio te
mpo... Não tenho medo do escuro, mas deixa as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu. Somos tão jovens... Tão jovens, tão jovens.

Legião Urbana - Tempo perdido.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Calada, deixo a música falar por mim.

Ninguém pensou que este sobreviveria, criança infeliz, sempre a um passo atrás. Prendo-te em um sonho, e nunca a deixarei escapar. Nunca deixarei rir ou sorrir, você não.
Eu só quero ir embora deste mundo, pois todos têm um coração envenenado.
Fazendo amizades com um mendigo em farrapos. Cheio de sorrisos e gentilezas, realmente me comove. Há perigo em cada esquina, mas estou indo bem. Andando pelas ruas, tentando esquecer o passado.
Bem, só quero ir embora deste mundo, pois todos têm um coração envenenado.
Sabe, a vida cobra mesmo o seu preço. E a reação corajosa de um poeta é se encontrar. Há muita confusão perante meus olhos, mas nada mais me perturba e este aqui vai perdurar.
Eu só quero ir embora deste mundo, pois todos têm um coração envenado.
Um coração envenenado, um coração envenenado, um coração envenenado.


The Ramones - Poison Heart.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Shed a tear, 'cause I'm missing you.

No ano novo, de manhã, parou a família inteira para rever aquelas fitas cassetes de quando meu tio filmava. Ele filmava absolutamente tudo. Todas as festas, jantares, estava ele lá com a câmera. Vi quando eu era pequena, e tinha aquela união forte com meus primos. Vi quando minha mãe era mais nova e bonita. Vi meu irmão, com cara de moleque e tendo seu primeiro filho aos 17 anos. Também vi minha irmã na época que era grunge, e quando se tornou evangélica aos quatorze anos. E vi ele. Meu pai. O pai que me pôs no mundo, e que partiu dele quando eu tinha seis anos. Eu não aguentei... Não aguentei mesmo. Nem mal vi sua sombra, e meus olhos arderam alertando as lágrimas, e quando o vi, tão lindo como era, me desabei, esquecendo meu orgulho de chorar na frente da família e me consentrando somente nele. Meu pai. Vê por fotos, uma imagem que está congelada, um sorriso forçado pelo flash e uma pose insaiada, não é nem de perto tão forte quando vê ele em movimento, o brilho dos seus olhos e um sorriso instantâneo. Eu nunca havia ouvido sua vez, e desta vez eu a ouvi. Não foi não nitido, já que as fitas cassetes tinham mais de dez anos e estava um pouco ruins, mas eu ouvi. Agora sei seu timbre, e sei que ele gostava de falar palavrão, era arrogante, engraçado e marrento. Assim como eu. Mas não foi o suficiente... Sabe? Eu queria ter lembraças... Na minha cabeça. Eu queria que ele não tivesse ido tão cedo... Numa época que minha mente não estava pronta para guardar memórias. Eu não lembro de nada que se relacione a ele. Todos dizem que ele era antisocial e só era simpatico quando bebia. Que ele não dava atenção para os filhos e só voltava a noite... Que é por isso que não lembro, porque ele era ausente. Eu nunca dei ouvido para eles. Mesmo que eles sim tenham tido oportunidade de conhece-lo, e eu não. Eu queria ter visto, eu queria ter abraçado ele, mas um abraço do qual eu lembrasse depois. Um beijo, e ter dito "Eu te amo, papai. Por favor,não vá para aquele lugar. Lá é um lugar ruim, pode acontecer algo com você", e talvez isso dito, ele não tivesse ido, e estivesse aqui comigo hoje. Com seus quase cinquenta anos, mas estaria. E quando ele morresse, não porque confundiram ele com outro rapaz e as balas de uma arma ultrapassariam seu corpo injustamente, mas sim por uma doença, por causa da idade, e ai sim, quando ele morresse, eu ia ter lembranças. Muitas lembranças para contar para os meus filhos sobre o meu pai. De como meu pai era bom, amavel e simpatico, e não tão ruim como os outros insistiam em me dizer, em me fazer acreditar. Por que você me deixou, papai? Me deixou apenas com essas lágrimas para chorar. Essas lágrimas que afloram de forma tão violenta em certas datas. Como em Novembro, que foi o mês que você morreu. Nem mesmo esperou meu aniversário, papai. Por que? Por que no dia dos pais o teu fantasma vem me assombrar e me fazer chorar o dia inteiro? E no dia do teu aniversário. Quantas velas o senhor poderia ter apagado desejando viver um pouco mais? Eu ia pedir pra Deus, papai, que ele deixasse você viver. Eu ia pedir sim, eu prometo. Eu queria que você fosse nas minhas reuniões do colégio. Eu queria, quando em um problema, ligar para o senhor e dizer "Papai, vem me buscar". Eu queria ter alguma semelhança fisica sua... Para quando me olhar no espelho, poder dizer com todo o orgulho "Eu pareço com meu pai". Vovó me diz que minhas orelhas são iguais a suas, papai. Iguaizinhas. E meu nariz sangra fácil igual ao teu também. E a mania de beber o refrigerante e a água na geladeira direto na boca também. Mamãe diz que meu jeito é igual o seu. E lembro que as vezes ela até me chamava de "Cidão". Papai... Eu não aguento mais chorar. Sei que Deus pôs outro em seu lugar, e que ele é legal, mas eu sinto sua falta, papai. Promete que vai estar olhando pra mim do céu? Promete, papai? O senhor era tão lindo. Aposto que mamãe se apaixonou por você na certa. Com esses olhos claros e esse sorriso, papai. Deve ter abalado muitos corações. Quais será as manias que você tinha? Os lugares que gostava de ir? O tipo de música que gostava? O tipo de roupa que lhe caia bem? Suas cores favoritas? Você me amava, papai? Muito? O que será que você pensou nos seus ultimos segundos de vida? Será que você pensou em mim? Na tua filha de seis anos que precisava de você, papai? Que modo desgraçado foi esse que você morreu. Nem mesmo tive chance de me despedir, de te dizer adeus e dizer que te amo com todas as minhas forças. Eu fui uma boa filha pra você? Eu era malcriada? Se eu fui, me perdoa, eu juro que me arrependo. Eu lembro de quando era pequena... E chorava por causa de você, papai, e um dia mamãe me pegou chorando, e disse "Não chora. Seu pai ta no céu, e ele está feliz. Se você chorar, ele vai voltar, e vai ficar triste por isso". Tá feliz, papai? Tá feliz onde você está? Eu não ligo, papai, eu juro que não ligo pelo o que eles falam de você. Eu te amo. Eu queria que você me visse agora grande... Eu queria saber o que você acha de mim agora. Mesmo que fosse algo negativo, eu ia continuar te amando. Você ia gostar dos meus amigos? Do meu namorado? Você iria me levar para os lugares com você? Ia me parabenizar quando as minhas notas no colégio fossem boas? Iamos brigar muito, papai. Porque eu não sou perfeita, muito pelo contrario, sou teimosa e quero sempre ter a razão. Mas eu sei que iamos nos entender, porque o senhor é meu pai, eu tenho teu sangue correndo nas minhas veias, tenho seu DNA em mim e teu sobrenome. O senhor é o meu pai, e eu ia me arrepender. Iamos ter apelidos um para o outro, e rir muito juntos. O senhor teria sonhos para o meu futuro, não teria, papai? Ia dizer que eu vou ser uma grande mulher e ter tudo o que desejo, porque o senhor sempre me deu tudo o que eu queria. Sempre. Disso eu lembro, sim. Lembrei! Lembrei de quando eu ficava deitada no chão, o senhor tirava o chinelo, colocava teu pé na minha barriga e mexia ele de forma engraçada, e me fazia rir bastante. Vovó diz que você tinha mania de intortar a orelha de forma estranha... E mamãe também diz que você tirava as cascas do meus machucados, e quando eu chorava, o senhor me chamava de chorona. Será que seriamos amigos? Pai e filha unidos? Esse seria meu sonho... Eu chegaria do colégio ansiosa para te ver. E quando eu tivesse uma noticia boa, não veria a hora de compartilhar com você. Quando eu tivesse meu primeiro namorado, o senhor iria ser ciumento ou seria bonzinho? Queria saber de tantas coisas, papai. Queria te conhecer muito bem. Te conhecer a ponto de ser a única pessoa capaz de erguer a mão e dizer que conhece o interior de José Aparecido Pereira, não só o que ele mostra. Aposto que você era muito bom, papai. Não era essa pessoa má como dizem. Aposto que era apenas uma mascara, assim como eu tenho, para não mostrar fraqueza. Mas no fundo o senhor o melhor dos corações. Não é? Por favor, tem que ser. Eu não quero pensar que o senhor era ruim. Não quero acreditar que o senhor saia pra ficar com outras mulheres. Eu não posso acreditar. O senhor era bom, um ótimo marido e um maravilhoso pai. É, era sim. Quando eu tiver meu filho, pretendo por o segundo nome dele de Aparecido. Por você, papai. Quero olhar pra ele e lembrar de você, e pensar como o senhor teria sido um ótimo avô para ele. Iria ensina-lo mais do que o pai dele ensinaria, porque o senhor é o avô, é o mais sabidão de todos. Iria contar histórias para ele da tua vida, contar como eu era quando pequena e iria faze-lo rir bastante. Angelus Aparecido... Ele iria gostar de você, papai. Ia, sim. Será que eu iria ser uma boa filha pra você, papai? Agora, na idade que estou? Eu não sou boa para a mamãe, sabia? Eu sou malcriada, mas não é porque eu quero, sabe, papai? Eu amo muito ela. Eu já perdi o senhor, se eu perder dela, eu morro, papai. Morro sim. A sua mãe sente sua falta, pai, sabia? Vó Luzia deve sentir muito a sua falta. Deve ser tão ruim perder um filho. Queria te abraçar, papai. Bem forte. Sentir teu aroma, teu halito, o cheiro dos seus cabelos e a textura da sua pele.

Eu sinto a sua falta, papai. E se o senhor sente a minha, onde quer que você esteja agora, eu só te pesso que quando me ver chorar, por favor, me abrace.


José Aparecido Pereira.