sexta-feira, 25 de junho de 2010

Aos meus primos.


Quando pequena sempre fui uma criança carinhosa. Tinha medo de ficar sozinha, pavor da escuridão e amava profundamente. Amava tudo e a todos. Amava o vizinho e a moça da mercearia. Amava minhas bonecas e todos os meus familiares, até os que moravam longe e os que já haviam partido do templo da vida. Era esperta, e reparava em tudo, e mal sabia eu, mas era forte. Afirmo com um nó na garganta que era mais forte do que sou hoje, depois de tanto tempo, depois de descobrir o que a vida realmente era. Talvez por isso eu era tão forte, por não saber que a vida era uma realidade dolorosa em que a cicatriz não vai embora. Talvez pensasse que quando a gente afagava, a cicatriz desmanchava. Simplesmente ia embora, e a gente ficava livre do que um dia iria ser uma memória terrível. Quando o meu pai penetrou o útero da morte, minha mãe me disse que eu, ao saber da notícia, simplesmente fui até o armário dele, peguei suas roupas, e as tirei de lá. Mas analisando esse fato, posso comprar a Pequena Thauany com a Grande Thauany de hoje, que se mostra forte e firme, mas por nos bastidores é frágil e derrama lágrimas ocultas. Lembro-me muito bem que um dia minha mãe me pegou chorando, e eu disse que sentia falta do meu pai e que o queria de volta. E como eu era pequena, ela me disse que se, eu chorasse, meu pai iria voltar, mas ele estava num lugar bom, e se ele voltasse, ficaria triste. Como não queria meu pai triste, prometi a mim mesma que nunca mais o desejarei de volta. Contudo, depois de grande, o desejei aqui, mas ele não voltou do lugar onde estava.

Quando ele se foi, meu tio Fernando disse a mim que ele seria o meu pai. Ele iria preencher o lugar paternal que a terra do solo enterrou consigo. Apartir daquele momento, todos os meus cartões do Dia dos Pais foram para ele, e eu não me sentia tão sozinha, porque tinha para quem entregar os meus desenhos e um “Feliz Dia dos Pais”. Meu tio era meu pai e meus dois primos meus irmãos. Cayo e Kauã faziam parte da minha vida, meu dia nunca seria completo se eu não os visse. Éramos inseparáveis, os três mosqueteiros. A casa deles era a minha casa, e juntos sonhávamos com um futuro mágico, pois não tínhamos noção alguma de que a vida se tratava dessa coisa tão complexa e difícil. Não haviam nos dito, ao sair do útero da nossa mão e penetrar no útero social que, uma vez que nossa mente era infecta com a maldade do mundo, a gente não seria mais o que éramos. Que a gente não iria ser tudo o que a gente gastou preciosas horas da nossa vida imaginando. Ninguém disse que quando crescêssemos, a gente ia se tratar como três estranhos, três crianças que eram como uma só. Hoje eu não sei quem é o Cayo, não faço idéia de quem é aquele estranho que se apossou do corpo do meu Kauã. É um fato que o ser humano se reinventar a todo momento, mas tinha que acontecer isso com a gente? Por que tínhamos que seguir caminhos diferentes? Por que é que todos nós não podíamos ser igual, sendo que quando crianças éramos assim? Por que eles tinham de ir para esse caminho tão negro, TÃO errado? Eles eram os meus irmãos, eles eram os meus companheiros, os meus anjos. Hoje são estranhos. Eu mudei, e eu pesso perdão por não ser como a Pequena Thauany. Pesso perdão por ter desonrado todas nossas promessas, mudando minha personalidade e meu jeito. Descaracterizando a Thauany dócil, meiga, que gostava de abraçar a todos e confiava no mundo inteiro. Agora é uma Thauany arrogante, desconfiada e reclusa. Eu matei a Thauany de vocês, e construi isso que eu chamo de “eu”. Mas vocês tiraram de mim o meu Cayo e o meu Kauã. Nenhum de nós tinha esse direito, pois os VERDADEIROS Thauany, Cayo e Kauã assinaram um trato de que seriamos unidos e que o nosso mundo sempre seria mágico. Os meus verdadeiros irmãos, aqueles que saiam do útero da minha mãe assim como eu, nunca tiveram a mesma importância que vocês dois tinham para mim. Não há momento em que olho para esses dois e não tenho a vontade de chorar... De ver o que eles eram antes, e ver o que são agora. Eu queria tanto voltar no passado, apagar as linhas e reescrever um novo futuro para nós três. Fazer com que a gente nunca tivesse desfeito nosso laço, e juntos, seriamos pessoas boas.

Nessas linhas juntos com as minhas lágrimas, se existe realmente um Deus, eu quero que ele traga os meus primos, os meus irmãos de volta. E que junto, traga a verdadeira Thauany. Porque eu amo esses dois com a minha alma, com o meu sangue, e não quero que eles penetrem no útero da morte tão cedo. Quero ver seus filhos, e que eles dêem colo para os meus. Quero ser amiga de suas esposas, e quero abraça-los e dar a ordem aos meus ombros de capturar suas lágrimas. Eu quero que eles sejam felizes. Só EU sei o quanto eu quero isso, e o quanto é sincero esse meu desejo. Eu quero renunciar a felicidade que um dia eu irei sentir, para dar a eles. Eu quero ver, como um filme agradável, o futuro dos meus meninos, e quero ver eu nesse filme. Não mais quero chorar nos bastidores da vida, eu apenas... eu apenas quero eles de volta.